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A TIRANIA DA SEMANA DE PROVA: ESTUDAMOS PARA APRENDER OU PARA PASSAR?

Por: Jairzinho Rabelo

Outro dia, num local público, ouvi o desabafo de uma mãe desesperada: ” É semana de prova e meu filho não quer estudar “. A cena é tão comum, que quase passa despercebida. Mas, ela me travou e ficou ecoando reflexões, não sobre aquele menino. Foi sobre nós: por que só estudamos na semana de prova?

Naturalizamos o absurdo. Transformamos a aprendizagem, que deveria ser um processo contínuo, curioso e vivo, em um evento espasmódico, ansioso e pontual. O estudante brasileiro médio não estuda; ele faz “mutirão” de memorização para despejar na prova e esquecer no dia seguinte. E os pais? Muitos só aparecem no dia do boletim. Cobram a nota, não a aprendizagem.

Como bem defendia Pierluigi Piazzi, o estudante não deve estudar para a prova. Deve estudar para aprender. A prova deveria ser apenas consequência. Mas fizemos o inverso.
Vemo a nota como fetiche.

Nosso sistema educacional está estruturado para idolatrar a nota como pseudocomprovação da aprendizagem. A nota virou moeda, verniz, marketing. O exemplo mais perverso está nos nossos colégios militarizados aqui em Roraima e no Brasil: a cerimônia do alamar en nas escolas regulares o tal do prêmio de “aluno nota 10”. Bate-se palma, entrega-se medalha, tira-se foto para a rede social da escola. É bonito? É. É pedagógico? Não.

Ninguém pergunta, naquele palanque: e os que não receberam o alamar, por que não aprenderam? O que falhou no processo? Onde a escola errou? A meritocracia escolar, tão celebrada, é uma forma elegante de lavar as mãos. Ela premia quem já tem estrutura para ter nota alta – apoio familiar, aula particular, tranquilidade emocional – e culpabiliza individualmente quem ficou para trás. Valorizamos o vencedor e invisibilizamos o processo que produziu os perdedores. A nota, assim, esconde mais do que revela.

Observamos que o discurso da moda é o da “recomposição da aprendizagem”. É necessário, sim. Depois da pandemia e das lacunas históricas, precisamos recompor. Mas recompor o quê? Se continuarmos recompondo para que o aluno tire 7 na próxima prova, só estamos remendando o fetiche.
Recomposição de verdade não é dar mais do mesmo, mais rápido. É mudar a lógica. É perguntar o que aquele estudante não aprendeu de fato, não que questão ele errou.

Diante deste cenário, como nos livramos das malditas semanas de prova? Sugestões não faltam, falta coragem para implementá-las:

  1. Acabar com a semana de prova. Simples assim. A semana de prova é uma aberração pedagógica. Ela ensina que aprender é sofrer por um período para depois descansar. Precisamos trocá-la por avaliação formativa e contínua. Pequenas verificações semanais, projetos, seminários, autoavaliação. Avaliar todo dia, um pouco, sem susto. Quem aprende todo dia não precisa de semana do terror.
  2. Trocar boletim por devolutiva. Pais não precisam saber que o filho tirou 6,5 em matemática. Precisam saber que ele não compreendeu fração e como podem ajudá-lo em casa. Uma reunião de 10 minutos explicando o percurso do filho vale mais que um boletim com 10 notas.
  3. Premiar o processo, não só o produto. Em vez de alamar só para a maior média, que tal premiar evolução, colaboração, criatividade, esforço de quem tinha dificuldade e avançou? Que tal valorizar a turma que aprendeu junta? A aprendizagem é coletiva.
  4. Trazer os pais para a aprendizagem, não só para a cobrança. A mãe desesperada da semana de prova é vítima do mesmo sistema. Ninguém a ensinou a acompanhar a rotina de estudos, a criar curiosidade em casa, a perguntar “o que você aprendeu de interessante hoje?” em vez de “quanto você tirou?”.

Enquanto a escola continuar funcionando como um cartório que autentica notas, teremos estudantes ansiosos, pais desesperados e uma sociedade que confunde certificado com conhecimento.

Precisamos ter a coragem de dizer: a semana de prova fracassou. Ela não mede aprendizagem. Ela mede a capacidade de suportar pressão e memorizar.

Assim, estudar para aprender dá trabalho todo dia. Estudar para a prova dá desespero uma semana. Qual escola nós queremos ser?

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