FOPLURR

POR QUE NÃO SEMEAMOS LÍNGUAS NAS NOSSAS ESCOLAS?

Por: Prof. Dr. Jairzinho Rabelo

Como professores já discutimos bastante, mas não o suficiente, sobre a presença de alunos migrantes nas escolas de Roraima. Somos um estado de fronteiras e temos escolas de fronteiras. Não apenas aquela fronteira que o mapa desenha com régua e compasso, mas a fronteira que mora na boca de crianças e jovens.

Na sala de aula, o português chega de mochila nas costas, senta-se na primeira carteira, pede licença e abre o caderno. O espanhol e o inglês entram pela janela, trazidos no vento que cruza o lavrado, sentam-se ao lado sem pedir permissão, porque casa de fronteira tem sempre a porta entreaberta. E ali, entre um “buenos días”, um “bom dia” ou um “good morning”, nasce um jardim.

Que riqueza é essa, meus colegas? Temos nas mãos sementes de, no mínimo, três línguas e, às vezes, insistimos em regar apenas uma. O espanhol e o inglês são vizinhos de cerca baixa, poderiam ser os irmãos com quem dividimos o pão da palavra. Quantas crianças já não atravessam a ponte do Tacutu com o ouvido bilíngue, entendendo a mãe em português e o vendedor em inglês, como quem bebe água de dois rios sem se afogar em nenhum? Ou quantas crianças atravessaram a savana venezuelana e abraçaram a língua portuguesa sem perder suas raízes hispanas? Além deles, a riqueza linguística das etnias, trazidas no jamaxin pelos Pemón, Warao e Eñepá.

A escola roraimense é um igarapé onde deságuam muitos falares: o português caboclo do interior, o espanhol venezuelano que chegou com as malas da esperança, o macuxi e o wapichana que são raízes antigas fincadas no chão vermelho da nossa história, o inglês da Guiana que escorre manso pelo leste. Cada língua é um pássaro de plumagem diferente pousado no mesmo galho. Por que haveríamos de espantar alguns e aplaudir apenas um?

Será que estamos aproveitando o contexto geográfico e geopolítico que vivenciamos? Roraima não é fim de linha; é encruzilhada. Somos o coração que pulsa entre diversas nações. Fechar os ouvidos ao espanhol, ao inglês ou às línguas indígenas aqui é como morar à beira-mar e nunca aprender a nadar.

A escola, esse quintal sagrado da aprendizagem, pode fazer florescer o que já é semente no nosso estado. Ensinar e aprender espanhol ou inglês não como matéria fria de verbo conjugado no quadro, mas como língua viva que se come, se canta, se negocia na feira do produtor, que digam as haitianas com seu “olha o alho” e seu repertório de, no mínimo, três línguas. Precisamos transformar a aula num terreiro onde as línguas dançam ciranda, de mãos dadas, sem que uma pise no pé da outra.

Porque uma criança que fala duas ou mais línguas carrega lamparinas na escuridão do mundo. E Roraima, essa terra de sol generoso e horizonte largo, merece ser iluminada por inteiro. Valorizemos, pois, essa polifonia. Que a escola seja o maestro dessa orquestra de sotaques, e que cada aluno saia dela não apenas alfabetizado, mas enriquecido: cidadão do seu bairro e do mundo, com o português no peito e o espanhol, o inglês ou qualquer outra na ponta da língua, prontos para florescer.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima