Por. Prof. Dr. Jairzinho Rabelo

Nos anos 90, entre um café e outro na sala dos professores, eu ouvia a máxima que parecia senha de clube secreto: “temos que ter didática para controlar uma sala”. Controlar. Como quem segura as rédeas de uma turma braba, como quem doma cavalo xucro.
Nunca me interessei em aprender essa didática de rédea curta. Confesso: sou do tipo que foi à faculdade sem caneta e sem caderno, pedindo emprestado aos colegas. Mas uma coisa eu sempre carreguei: a preocupação com a aprendizagem dos alunos. Essa nunca faltou.
Os tempos mudaram. A didática trocou de roupa, fez plástica, saiu com nome novo: gestão de sala de aula. Chegaram as metodologias ativas, os roteiros, as rubricas, os dashboards. Tudo muito bonito, tudo muito moderno. A rédea virou aplicativo.
Mas, cá entre nós, algumas coisas não mudaram nada. O foco continua sendo o conteúdo empurrado goela abaixo, o resultado da prova, a melhoria da nota. Uma exaustão de simulados, como se a escola fosse uma fábrica de maratonistas de gabarito. Corre, menino, corre, que o Ideb está te esperando na linha de chegada!
É nesse ponto que a música entra na conversa, como quem bate à porta da sala e diz:
— “O tempo não para!” (Cazuza, O Tempo Não Pára)
E a escola, coitada, corre atrás dele sem nunca alcançar.
E o ser humano? Ah, o ser humano continua sendo aquele detalhe que a gente esquece no planejamento.
Quem são os seres humanos na escola? O menino que chega com fome e a gente acha que é desatenção. A menina que dorme na carteira e a gente chama de preguiça, sem saber que ela passou a noite cuidando do irmão pequeno. O professor que sorri na porta da sala e chora no banheiro no intervalo. Somos todos gente, mas a escola insiste em nos tratar como planilha.
Deixo aqui um recado cantado para quem planeja sem olhar nos olhos:
— “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.” (Caetano Veloso, Gente)
E como lidamos com o fato de também sermos seres humanos? Essa é a pergunta que ninguém colocou no simulado. Porque ser humano não cai na prova. Ser humano não tem descritor, não tem habilidade codificada na BNCC com letrinha e número.
Gonzaguinha, do fundo da sala, levanta a mão e diz:
— “Eu acredito é na rapaziada.” (O Que É, O Que É)
E eu completo: acredito na humanidade da rapaziada, não só na nota dela.
Talvez a verdadeira didática, aquela que eu nunca aprendi teoricamente, seja justamente essa: lembrar que antes do aluno existe uma criança, antes do professor existe uma pessoa. Que a sala de aula não é curral para controlar gado, nem pista de corrida para produzir nota. É jardim. E jardim não se controla: se cultiva. Com paciência, com água, com sol. E, de vez em quando, com a graça de aceitar que nem toda flor desabrocha no bimestre previsto no calendário escolar.
Belchior, encostado na janela, deixa o último recado do dia:
— “Amar e mudar as coisas me interessa mais.” (Alucinação)
No fim das contas, formar professores talvez seja menos sobre técnicas de controle e mais sobre reaprender a ser gente. Porque quem esquece que é humano dificilmente lembrará que o outro também é.

