
Prof. Dr. Jairzinho Rabelo
O relógio da parede marca 21h15. O zumbido do ar-condicionado divide a atenção com o reflexo azulado das telas de celular que iluminam, de baixo para cima, os rostos cansados da uma turma. Na lousa, o pincel viaja enquanto o professor tenta desenhar um conceito complexo. Pelos corredores frios da universidade, o silêncio só é quebrado pelo eco dos passos de quem já desistiu da noite.
Para os burócratas, aquele professor deveria ser uma máquina de alta performance. O manual invisível do produtivismo exige que, após um dia inteiro preenchendo relatórios, alimentando o sistema Lattes e respondendo a e-mails institucionais com cobranças de metas, ele entre ali com a energia de um animador de auditório. É o “professor-show” cruzando com o “aluno-boleto”.
— Professor, isso cai na prova? — pergunta um rapaz na terceira fileira, de braços cruzados.
— Quantos pontos vale o trabalho? — emenda outra estudante, sem tirar os olhos da tela.
O cansaço da sala é palpável, um reflexo exato do esgotamento do próprio docente. É o pacto silencioso da mediocridade rondando a mesa: se ele apagar as luzes e passar um documentário longo, ninguém reclama e todos vão para casa mais cedo. Seria o caminho mais fácil para quem tem um artigo científico para revisar antes da meia-noite para manter o conceito do programa de pós-graduação.
Mas é justamente no chão dessa sala de aula, entre o cansaço do pincel e o desinteresse latente, que nasce a superação. Ela não vem disfarçada de um grande prêmio acadêmico ou de uma salva de palmas no colegiado. Ela se veste de teimosia. Uma teimosia miúda, quase clandestina, que subverte o moedor de gente em que a universidade se transformou.
A superação começa quando o professor decide não ligar o projetor para despejar slides automáticos. Ele respira fundo, puxa uma cadeira e senta-se mais perto da primeira fileira. Olha nos olhos dos estudantes e decide contar uma história que não está no manual.
Teimar, ali dentro, é o ato de coragem de quem decide ensinar com intenção. É o professor que sabe que a moça da última fileira é mãe solo e trabalhou o dia todo, e que o rapaz do canto veio direto da periferia sem jantar. Em vez de aceitar o pacto do desinteresse, o professor teimoso insiste no diálogo. Quando o aluno-boleto entrega um resumo feito às pressas, o professor não carimba uma nota de consolo para evitar problemas. Ele devolve o papel com anotações detalhadas nas margens e diz, em um tom firme, mas acolhedor: “Eu li o seu texto. Sei que você é capaz de pensar de forma mais profunda do que isso. Refaça, eu te ajudo.” Isso não é crueldade; é o único respeito verdadeiro que resta.
Essa mesma teimosia cura a pesquisa. Enquanto a engrenagem exige artigos em inglês voltados para revistas internacionais, o pesquisador teimoso decide gastar seus finais de semana investigando o saneamento do bairro ao lado ou a realidade da escola pública da esquina. Ele humaniza a ciência. Transforma o que seria apenas uma linha fria em uma planilha de Excel em um abraço na comunidade. A extensão deixa de ser a foto bonita para o Instagram da instituição e passa a ser o momento em que a comunidade atravessa os muros vaidosos da universidade para reinventar o espaço.
Quando o tempo aproxima-se das 22h8, a sala vai esvaziando devagar. O professor junta seus papéis, apaga o quadro e fecha a porta de mais dia de luta. Ele ainda está exausto, a bolsa continua cheia de textos e as cobranças por produtividade o esperarão no computador de casa. No entanto, o peso na alma diminuiu.
A universidade pode ter adoecido de planilhas e métricas de eficiência empresarial, mas as paredes das salas de aula ainda guardam um segredo antigo. Enquanto houver um docente disposto a recusar a lógica do galinheiro acadêmico e um estudante provocado a pensar por si mesmo, o produtivismo perde a batalha. A superação não está em cumprir a meta da burocracia acadêmica; está em acender a lamparina no escuro da sala, garantindo que o conhecimento continue vivo, humano e subversivo.

