Por: Prof. Dr. Jairzinho Rabelo

Vou começar por aqui, porque talvez seja o ponto que mais dói em você e em mim…
Nos últimos anos, transformamos a escola num quartel disfarçado de futuro. Um espaço de repressão, de dor e de cobrança crônica. De ranking, de quem é melhor que quem, de desrespeito sistemático ao trabalho do professor, de isolamento, de aparências. Uma vitrine bonita por fora e exausta por dentro.
Criamos uma doença com nome pomposo: “vencer a todo custo e a qualquer preço“. E como toda doença crônica, ela não mata de uma vez. Ela vai corroendo. Adoece o aluno que não dorme por causa do simulado. Adoece o professor que corrige prova às 23h e ainda ouve que “não faz mais que obrigação”. Adoece a gestão que só conta nota no IDEB e esquece de contar abraço, escuta, pertencimento.
E no meio dessa febre, tomamos uma decisão sintomática: retiramos o celular…
Resolveu? Não. Criou o que toda proibição sem diálogo cria: criaturas na penumbra, subvertendo a ordem no banheiro, debaixo da carteira, na criatividade clandestina de quem aprendeu que para existir na escola precisa esconder quem é. Proibir o celular sem discutir o tédio, a falta de sentido e a solidão não educa. Só adestra. E adestramento nunca foi educação. Como disse Paulo Freire: “A escola que é verdadeiramente educativa não proíbe a curiosidade, não castra a criatividade. Onde há proibição sem diálogo, há silenciamento, e o silenciamento não educa, apenas domestica. Mudar o comportamento pela força da regra e não pela compreensão do sentido é reproduzir uma pedagogia da opressão.” Não que sejamos contra a proibição do celular, mas criticamos como ela é administrada nas escolas.
A escola não precisa de mais muros. Precisa de mais pontes…
Propomos aqui uma metáfora: por muito tempo, pensamos a escola como uma fábrica. Sinal que apita, fila, uniforme, esteira de conteúdos, controle de qualidade via prova. Se o aluno sai com defeito, a culpa é da peça.
Mas e se pensarmos a escola como um jardim?
Numa fábrica, o diferente é descartado. Num jardim, o diferente é necessário. Num jardim não se cobra que o cacto floresça no mesmo tempo da samambaia. Num jardim, o jardineiro – o professor – não é o dono da planta, é o cuidador do solo. Como nos lembra Rubem Alves, “o professor é aquele que ensina a alegria de aprender”.
Hoje, nós pisamos no jardineiro e ainda exigimos flores…
Transformar a escola em ambiente de acolhimento não é colocar pufes coloridos e dizer que está tudo bem. Acolhimento não é permissividade. É estrutura emocional para aprender. É o que Bell Hooks chamou de “comunidade de aprendizado”, onde todos – não só os alunos – se sentem seguros o suficiente para correr o risco de não saber.
Como mudar, então? Não com uma reforma, mas com uma revolução miúda, diária, teimosa.
A primeira das TEIMOSIAS é devolver a dignidade ao professor. O primeiro acolhido precisa ser quem acolhe. Não há escola acolhedora com professor humilhado. Valorizar não é só discurso no Dia do Professor. É hora-atividade real, é escuta institucional, é parar de transformar o docente num youtuber que precisa competir com o TikTok. É dar a ele o direito de dizer “hoje eu não estou bem” sem ser visto como fraco. Como “ironizou” Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Mas ninguém transfere nada quando está em burnout.
A segunda TEIMOSIA seria aquela de trocar a comparação pela pertença. Nossa escola viciou em pódio. Melhor aluno, melhor turma, melhor nota. Isso não é meritocracia, é canibalismo pedagógico. Enquanto uns vencem, muitos sangram calados. Precisamos trocar o pódio pela roda. Roda de conversa, roda de leitura, roda de conflito. Acolher é dizer, todos os dias: “aqui você não precisa vencer ninguém para ter valor. Você já tem valor porque está aqui”.
A nossa terceira TEIMOSIA seria educar o celular em vez de exorcizá-lo. O problema nunca foi o aparelho. Foi o vazio que ele veio preencher. O celular na mão do aluno é, muitas vezes, a única janela onde ele se sente visto. Em vez de polícia de bolso, por que não pacto de uso? Por que não aula com celular, aula sem celular, aula sobre o celular? O aluno que aprende a usar a ferramenta não precisa escondê-la. Como disse Mia Couto, “não é a ausência da tecnologia que nos torna humanos. É a presença de sentido”. Proibir sem educar só nos deu alunos mais ansiosos e mais criativos para burlar.
A quarta TEIMOSIA é criar espaços onde ninguém precise performar. A escola está cheia de aparências. Aluno com sorriso no Instagram e crise de pânico no banheiro. Professor com slide perfeito e gastrite crônica. Precisamos de espaços sem nota: sala do respiro, cantinho da escuta, grêmio que não seja só festa, tutoria afetiva, intervalos em que o adulto esteja no pátio não para vigiar, mas para estar junto. O acolhimento mora no não-previsto.
Finalizo com uma imagem que não me sai da cabeça: a escola que temos é um pronto-socorro que só atende quem já está bem. Quem chega sangrando – de medo, de fome, de falta de amor, de excesso de pressão – ouve: “volte depois da recuperação”. A escola que queremos precisa ser uma casa com a porta entreaberta. Onde se entra com o barro do sapato, sim, mas onde sempre tem um lugar na mesa.
Não vamos curar a doença crônica do “vencer a qualquer preço” com mais remédio amargo de cobrança. Vamos curar com o antídoto mais radical que existe em tempos cínicos: o cuidado. Que nossa escola volte a ser gente cuidando de gente. Todo o resto – inclusive a nota – vem depois.

